Anna Regina Maia
EDIÇÃO 63
7. Débora: mulher corajosa, alicerçada na confiança em deus e comprometida com seu povo
Para tomar posse da Terra Prometida os israelitas tiveram que enfrentar muitos combates e expulsar as nações que ali estavam. Desobedecendo a Deus os israelitas permitiram que esses povos permanecessem na Terra e, com o passar do tempo, casaram-se com mulheres que pertenciam a essas nações, assumiram seus costumes e até adoraram seus deuses. Poucos se mantiveram fiéis a Javé, dentre eles a juíza e profetiza Débora que aconselhava seu povo e rezava por eles, sendo chamada “mãe em Israel”.
Incumbida por Deus para a missão de defender seu povo, Débora chamou Barac para liderar um exército contra Sísara, capitão das tropas de Jabin, rei de Hazor, opressores de Israel. Barac, sabendo que seus inimigos eram em número muito maior do que os israelitas, mais preparados para a guerra e mais equipados, pois dispunham de cavalos e carros de combate, amedrontou-se e respondeu à Débora: “Só vou se você me acompanhar” Jz 4, 8. Débora não titubeou, seguiu junto com Barac para a linha de combate, pois para essa missão não cabiam questionamentos e sim obediência à vontade de Deus, independente das circunstâncias.
Que contraste! Barac – comandante militar inseguro e temeroso. Débora uma mulher – não tão jovem – decidida e corajosa; alicerçada na confiança e no poder de Deus; não se amedrontou diante das condições de seus adversários; sua fidelidade a Deus e o amor pelo seu povo a impulsionou e a conquista da terra aconteceu porque “Débora levantou-se”, ela convocou, alistou, organizou e atiçou os guerreiros de Israel para a batalha.
Embora muito mais preparados e equipados, os cananeus foram derrotados: uma chuva repentina inundou o riacho Ribeiro Quison onde estavam suas tropas, as rodas de seus carros atolaram e os cavalos não conseguiram sair da lama formada; alguns conseguiram fugir, como o general Sisara que correu para pedir abrigo ao quenita Héber. – Ah! Como Deus cria novas situações!!!... muda as estratégias... quem poderia imaginar os “poderosos” e orgulhosos soldados e capitães cananeus a fugirem a pé, diante do pequeno exército dos israelitas, e serem por estes exterminados!...
Jael, mulher de Héber, acolheu o general Sísara e, enquanto este dormia extenuado de cansaço, deu o golpe fatal, cravando uma estaca em sua testa e, pela morte de Sísara pôs fim à longa opressão que os israelitas sofriam por parte dos cananeus. Mesmo sendo casada com Heber e não sendo israelita, Jael decidiu-se a favor deste povo, talvez por conhecer a opressão que eles viviam com a cobrança de extorsivos impostos. Duas heroínas de Israel: Débora e Jael. Que exemplos de coragem e determinação! Mulheres que nos ensinam a fundamentar nossas atitudes na escuta, acolhimento e execução da vontade de Deus em benefício dos injustiçados e oprimidos.
Deus jamais abandona seu povo e para que sua vitória aconteça procura homens e mulheres dispostos a fazer a Sua obra. Se os homens se mostram inseguros e indecisos, Deus levanta mulheres arrojadas e cheias de discernimento. Débora conclamou as tribos de Israel para irem ao combate; não lamentou suas fraquezas nem questionou se eram pecadores ou justos. Débora ansiava pela libertação de seu povo. Sua coragem brotava de seu interior, da confiança que tinha nas promessas de Deus e a
partir daí, de sua disposição para fazer a vontade de Deus, mesmo que parecesse contrária à razão, à lógica ou à vontade própria. Débora levantou-se e agiu e, pela sua determinação a vontade de Deus realizou-se. No capítulo 5 do livro de Juízes encontramos o Cântico de Débora, um dos hinos mais antigos da Bíblia onde toda a luta pela libertação é cantada em versos. Débora convocou todas as tribos e louvou a Deus pelos irmãos que responderam a seu chamado e colocaram suas vidas em risco, mas também, censurou os que se acovardaram, o que demonstra que a coragem desta grande mulher que não se intimidou para denunciar os acomodados e descompromissados com o bem comum; uma atitude tão pouco encontrada nos dias atuais entre nossas lideranças.
Entretanto, ao longo de toda a história da humanidade, felizmente encontramos muitas Déboras vibrantes, lutadoras, incansáveis na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, na defesa dos direitos usurpados e busca de uma vida digna para todos, na educação de crianças e adolescentes, nos serviços pastorais e evangelizadores.
O que seria de nossas Paróquias se não existissem tantas Déboras a serviço de Deus?
EDIÇÃO 62
6. RAAB: A PROSTITUTA OU A MULHER ESTRANGEIRA
QUE ACREDITOU NO DEUS DE ISRAEL - Js 2
Após a morte de Moisés, Josué foi escolhido por Deus para introduzir o povo de Israel na Terra Prometida. Antes porém de marchar para as cidades de Canaã, Josué enviou dois espiões para sondarem o ambiente e as pessoas com quem iriam confrontar-se.
Diz a Bíblia que os espiões hospedaram-se na casa de Raab, a prostituta. A notícia da acolhida chegou aos ouvidos do rei que ordenou a entrega dos espiões. Raab, entretanto, afirmou que eles já tinham voltado para suas terras e ainda sugeriu: “ide após eles depressa que os alcançareis.” (Js 2, 5) Logo que os mensageiros do rei retiraram-se, Raab subiu ao terraço onde havia escondido os espiões israelitas e a eles disse: “Eu sei que Javé entregou a vocês esta terra. Estamos apavorados, e todos os habitantes da terra tremem diante de vocês. Porque soubemos como Javé secou a água do mar Vermelho diante de vocês, ...ninguém mais consegue respirar diante de vocês, porque Javé seu Deus é Deus tanto lá em cima no céu, como cá embaixo na terra. Agora, jure-me por Javé que, assim como eu os tratei com misericórdia, vocês também tratarão com misericórdia a minha família.” (Js 2, 9-12) E assim foi acertado um acordo entre as partes.
As informações passadas por Raab foram suficientes para infundir confiança em Josué e a certeza de que era vontade do Senhor, a posse desta terra pelo seu povo. Mais uma etapa da caminhada do povo de Deus era realizada. Sobre o ocorrido cabe refletir:
Por que o autor bíblico ao invés de, simplesmente, citar o nome da mulher que deu acolhida aos mensageiros de Josué e por isso contribuiu para a entrada dos israelitas na Terra Prometida, qualificou-a como: “Raab, a prostituta”? Era significativo o fato de Raab ser prostituta pela atitude que tomou? Ou justamente o autor bíblico nos quer mostrar que o plano de Deus se realiza até mesmo através de pessoas julgadas e condenadas pela sociedade? Pois na leitura e reflexão deste texto percebemos Raab como:
a) uma pessoa solidária, capaz de enfrentar o rei (o poder) para resguardar a vida de pessoas que estavam sendo perseguidas;
b) uma pessoa atenta aos acontecimentos, pois sabia ela da fama dos israelitas e das ações de Deus a favor de seu povo e, mesmo sendo cananéia acreditava que “o Senhor vosso Deus é Deus em cima dos céus e em baixo da terra” (Js 2, 11)
c) uma pessoa esperta, pois, reconhecendo a superioridade dos israelitas, cujo Deus vai à frente, estabelece com eles um pacto: “usei de misericórdia com vocês... façam o mesmo comigo e com meus familiares.”
A atitude de Raab e as releituras que o povo de Israel fez do episódio foram tão importantes para aquele povo, que além de ser contada e recontada a sua história, Raab não foi siquer esquecida na genealogia de Jesus, como pode ser comprovado no Evangelho de Mateus, capítulo 1. Para nós, hoje, creio que deste texto podemos tirar alguns ensinamentos preciosos como:
1. Deus se revela a quem Ele deseja; está acima dos conceitos “pré-estabelecidos” pela sociedade, acima dos condicionamentos que nos são impostos desde nossa mais tenra infância, fora de toda e qualquer discriminação, por isso Jesus nos ensina no Evangelho: “não julgueis” (Lc 6, 37). No tempo de Raab, muitas eram as pessoas que conheciam a fama do Deus de Israel mas poucas, aquelas que não sendo israelitas, acolhiam em seu coração a crença deste povo, como fez a “prostituta”;
2. os espiões acreditaram em Raab (embora soubessem que ela era uma prostituta), eles podiam ter desconfiado que ela estivesse tramando uma armadilha para eles, e Raab, embora soubesse que poucos lhe davam crédito, arriscou-se diante dos mensageiros do rei, em favor daqueles que ela pouco conhecia (mas que tinham um Deus que os livrava de todos os perigos). Houve, portanto, uma troca de confiança independente das circunstâncias. Hoje vivemos num mundo de descrença e desconfiança: pessoas boas e crédulas são continuamente enganadas, usurpadas em seus direitos, pelos espertos e maliciosos... é difícil praticar a solidariedade, mas Jesus afirma: “Eis que eu envio vocês como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam prudentes como as serpentes e simples como as pombas. Tenham cuidado com os homens...” (Mt 10,16). A maldade existente não deve, pois, ser a desculpa para não praticarmos o bem. Raab soube distinguir onde estava a vontade de Deus; com perspicácia e oração saberemos, nós também, oferecer acolhida e ajuda àqueles que realmente precisam.
3. Deus vê a intenção dos corações: Raab não só presta solidariedade como exige correspondência: ela quer garantir a salvação para si mesma e para toda sua família. Ela crê que o Deus de Israel tem poder e assim, torna-se a primeira mulher cananéia a entrar para a história de Israel. O fato de ser prostituta deixa de ser relevante; importa a bondade de seu coração e sua coragem para proteger e garantir a liberdade e a vida. Quantas pessoas, hoje, podem ser libertadas das injustiças sociais, da pobreza e das dores e angústias pela ação que praticarmos! Que este convite de Jesus ecoe em nossos corações e nos leve a sair de nossa individualidade para tomar uma atitude concreta em favor dos necessitados e, na hora de nosso encontro definitivo com Ele, possamos escutar: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim.” (Mt 25, 34-36)
EDIÇÃO 61
5. SÉFORA, FUA, JOCABED E MIRIAM:
quatro mulheres libertadoras
“Foi a luta de quatro mulheres em defesa da vida ameaçada das crianças, que desencadeou o êxodo. Elas tiveram a coragem de iniciar a resistência contra o sistema opressor do faraó que tinha decretado o extermínio dos meninos. A história destas mulheres, narrada bem no começo do livro do Êxodo (Ex 1, 15-22 e 2, 1-10), era relida e transmitida de geração em geração. Fazia parte da memória do povo. Era narrada com muito carinho, pois o povo conservou até os nomes delas: Séfora e Fua, as parteiras (Ex 1,15), Jocabed e Miriam, a mãe e a irmã de Moisés (Ex 6, 20); 15, 20)” Frei Carlos Mesters
Naquela época o povo de Deus – descendentes de Abraão, Isaac e Jacó – vivia escravizado no Egito, e, conforme a bênção de Deus “eram fecundos e se multiplicavam...” (Ex 1, 7). Isto assustava o novo rei: “devemos impedir que eles cresçam... podem aliar-se aos nossos inimigos... nos combater... sair do país” (Ex 1, 10). O poder do rei se sustentava na opressão sobre o trabalho escravo, na tributação cobrada, na força de seu exército e na ideologia que ensinava que o rei era o filho de Deus. O rei não conhecia Javé, o Deus dos hebreus, o Deus da bênção e da promessa, o Deus da vida que fecunda e multiplica o povo; mas seu poder estremeceu diante do crescimento desse povo. Por isso ordenou às parteiras: “Quando vocês ajudarem as hebréias a dar à luz, observem se é menino ou menina: se for menino, matem; se for menina, deixem viver.” (Ex 1, 16)
Os meninos representavam a continuidade e o crescimento do povo hebreu; as meninas, ao contrário, eram os futuros ventres de novos egípcios; por isso a decisão sobre a morte foi discriminatória, orientada apenas para atendimento dos interesses da classe dominadora. O rei queria manipular a fecundidade e a vida; arrogava para si mesmo o poder de vida e de morte.
O rei não tem nome, mas as parteiras sim: Séfora, que significa “beleza”, brilho e Fua, aquela que resplandece, espalha luz, portanto, o mesmo que “esplendor”. Beleza e Esplendor temiam mais a Deus que ao rei; para elas, só Deus tinha o direito de dar e tirar a vida, por isso não obedeceram, insurgiram-se contra a ordem do opressor e, quando questionadas, inventaram uma justificativa: “As mulheres hebréias não são como as egípcias; são cheias de vida, e dão à luz antes que as parteiras cheguem.” (Ex 1, 19). Sem empunhar armas nem praticar violência, mas com determinação e coragem essas parteiras – simples mulheres pertencentes ao grupo escravizado – nos dão o exemplo do poder minoritário que se impõe e prevalece.
Jocabed e Miriam, mãe e irmã de Moisés, também enfrentam com inteligência e astúcia o poder constituído, armando um plano que vai se realizar, exatamente, conforme os desígnios de Deus (Ex 2, 1- 10). E, assim, Moisés sobrevive, é amamentado pela própria mãe, contratada pela filha do faraó para tal fim, e só quando já está crescido é levado para o palácio onde Deus providenciará parte do seu treinamento diante da grande missão que lhe é destinada.
Estas mulheres experimentaram em suas vidas a força e o poder de Deus que supera todos os poderes dos reinos terrestres, e suas histórias foram contadas através das gerações e chegaram até nós, para nos lembrar que a luta em defesa da vida das crianças ainda continua em nossos tempos, mas a certeza do êxito final pode acalentar nossos corações com o cântico de Miriam: “Cantem a Javé, pois sua vitória é sublime: ele atirou no mar carros e cavalos.” (Ex 15, 21) Os meninos viveram, cresceram e, sob a liderança de Moisés, conseguiram sua libertação.
Em nossos dias vemos crianças abortadas, abandonadas, violentadas... e crianças, cada dia mais cedo, aliciadas pelo mundo das drogas... a luta pela defesa da vida, e vida com dignidade, continua a exigir esforços e determinação, não podemos esmorecer. Como educar os filhos nestes ambientes e sob a forte influência da televisão e da Internet? Uma alternativa que tem alcançado bons resultados é a de formar um pequeno grupo para partilha da vida, num ambiente de franqueza e sinceridade, falar de nossas inseguranças, nossos acertos e erros... e buscar na Palavra de Deus as luzes do Espírito Santo para a tomada de decisões acertadas. Essas quatro mulheres encontraram soluções.
O apóstolo Paulo nos lembra que, por maiores que sejam os obstáculos, por mais temíveis que possam parecer os nossos inimigos, sempre podemos afirmar: “Eu sei em quem pus a minha confiança” (2 Tm 1, 12b), pois “Em Cristo somos mais que vencedores” (Rm 8, 37).
EDIÇÃO 60
4 - ITAMAR - A PRIMEIRA MULHER CITADA NA GENEALOGIA DE JESUS - Gn 38
Na época a que se refere o livro do Gênesis, quando uma mulher se casava, passava a pertencer ao marido como sua propriedade. Conforme a Lei do Levirato, se seu marido morresse o irmão deveria casar-se com a viúva e ainda, se este morresse, o outro irmão deveria proceder da mesma forma. Esta era uma lei humanitária em favor do defunto – para que seu nome e sua posteridade não se extinguisse – e também a favor da viúva, para que não ficasse sem lar e sem filhos.
Assim deveria acontecer com Tamar mas Judá, seu sogro, ao constatar a morte de dois filhos, disse à nora: “Vive como viúva na casa de teu pai até que meu filho Sela cresça.” Judá estava pensando unicamente na vida do filho não importando-se com o destino de Tamar, pois a estava mantendo presa a uma promessa que ele não pensava em cumprir. Talvez esperasse que, com o passar do tempo, o compromisso fosse esquecido ou a promessa fosse rompida por Tamar.
Tamar, ao invés de prostrar-se e viver a lamentar-se pelo acontecido, esperou pelo cumprimento da lei em vigor; não podia reivindicar seus direitos pela força de coação, legalmente estava prometida a Sela, o irmão caçula e a ele devia fidelidade, mas o tempo passou e o casamento não aconteceu... ela percebeu a intenção do sogro. Então, com inteligência e astúcia, executou um plano envolvendo o sogro: fez-se passar por prostituta, conquistou-o e engravidou dele. Quando a gravidez de Tamar apareceu publicamente, Judá mandou que ela fosse queimada, mas Tamar apresentou-lhe as provas de ser ele o autor da gestação (o anel, o cordão e o bastão de Judá que ela tinha retido no ato da conquista). Diante da veracidade dos fatos Judá se reconheceu culpado e anulou a sentença de morte que tinha proclamado para Tamar.
Esta ocorrência é contada em apenas um capítulo bíblico, mas o fato deve ter impressionado os israelitas e por muitas vezes deve ter sido lembrado nas leituras da Torá, pois Mateus, ao iniciar a redação do Evangelho dirigido aos judeus convertidos ao cristianismo, apresenta a genealogia de Jesus, e nela inclui Tamar, a primeira de apenas quatro mulheres citadas nesta genealogia. Vamos refletir:
a) por que Tamar foi incluída na genealogia de Jesus? Por que era vontade de Deus que a ascendência de Jesus incluísse Judá? Ou por que o fato ocorrido mostra claramente que Deus está sempre do lado daquele que é injustiçado, pois deseja que “todos tenham vida e vida em abundância”?
b) a atitude de luta de Tamar para gerar a vida, apesar de tantos esforços empreendidos contra ela, não está a nos ensinar que não devemos sucumbir diante dos obstáculos que nos são impostos, e buscar alternativas para que a justiça vigore e as leis sejam cumpridas?
Em todos os tempos, ontem e hoje, o Deus da vida está a nos sugerir que empreendamos todos os esforços para garantir que os direitos humanos e sociais sejam atendidos; quantas Tamares nos dias atuais estão sendo hostilizadas por seus maridos, por seus sogros e até por seus pais que se julgam donos delas e por sua força ou poder de coerção maltratam, abusam, ceifam a vida das mulheres que estão à sua volta (sejam elas esposas, filhas, noras, funcionárias, etc.).
Que a inteligência de Tamar, buscando com astúcia medidas alternativas para a luta diária e continuidade da vida seja para nós um alerta e um impulso para nosso agir a favor da vida digna para todos e todas.
EDIÇÃO 59
3 - AS FILHAS DE LÓ - Gn 19,1-8, 30-38
Há trechos da Bíblia que requerem uma reflexão mais cuidadosa para compreendermos seu significado e extrairmos dele luzes para iluminar o nosso caminho, porque os lemos hoje, com o conhecimento de nossa cultura atual e todo o conjunto de condicionamentos que são resultantes das experiências que vivemos dia-a-dia. Um desses trechos refere-se às filhas de Ló, sobrinho de Abraão.
O início do capítulo 19 do livro de Gênesis aborda a questão da hospitalidade, preceito da maior importância para o povo da Bíblia: dois anjos (ou mensageiros) chegam à Sodoma e Ló os recebe em sua casa; os homens desta cidade injusta e condenada por Deus – jovens e velhos – questionam Ló, reprovam sua conduta e exigem retratação. Ló responde a eles com amabilidade, chama-os de “irmãos” e oferece suas filhas como troca, para resguardo dos visitantes. Interpretando o texto, diante de nossos valores atuais, choca-nos a oferta de Ló. Entretanto, conforme explicação da Bíblia do Peregrino, “o autor bíblico não condena a proposta de Ló. A fórmula conciliatória “meus irmãos” apela a direitos sociais que amparam também os imigrantes.”
Ló agiu como seu tio Abraão que ofereceu aos mensageiros andarilhos pães, coalhada, leite e um bezerro assado, mas a atitude desses jovens e velhos homens contrastou radicalmente com a prática da hospitalidade israelita. Os visitantes cumprem a missão que os levou à Sodoma recomendando a Ló e seus familiares que deixem a cidade, pois Deus vai destruí-la completamente.
Algum tempo depois Ló e suas filhas instalam-se numa caverna à distância. Acreditando serem os únicos sobreviventes na Terra “A mais velha disse à mais nova: “Nosso pai já está velho e na terra não há nenhum homem para ter relação conosco, como se faz em todo lugar. Vamos embriagar nosso pai para ter relação com ele; assim daremos uma descendência ao nosso pai.” Nessa noite, elas embriagaram o pai e a mais velha deitou-se com ele, que não percebeu nem quando ela se deitou, nem quando se levantou. No dia seguinte, a mais velha disse para a mais nova: “Na noite passada eu dormi com meu pai; esta noite, nós o embriagaremos de novo, e você se deitará com ele; assim daremos uma descendência ao nosso pai.” Também nessa noite, elas embriagaram o pai, e a mais nova deitou-se com ele, que não percebeu nem quando ela deitou-se, nem quando se levantou. E as duas filhas de Ló ficaram grávidas do próprio pai. A mais velha deu à luz um filho, e o chamou Moab, que é o antepassado dos atuais moabitas. Também a mais nova deu à luz um filho, e o chamou Bem-Ami, que é o antepassado dos atuais amonitas.” Gn 19, 31-38
Este episódio que pode até causar estranheza segundo nossos critérios atuais, para o autor bíblico “explica a origem dos moabitas (Moab = saído do pai) e dos amonitas (Bem-Ami = filho do meu povo), povos vizinhos e inimigos de Israel, lembrados aqui como fruto das cidades condenadas. O gesto das filhas de Ló é motivado pelo desejo profundo de perpetuar a vida,” conforme a interpretação dos exegetas contida no pé de página da Bíblia Pastoral.
E ainda, sobre o mesmo texto, segundo registros da Bíblia do Peregrino, “Comenta Orígenes: “ as filhas pensam que ficaram vivas só elas com o pai. Por isso ardem em desejos de restaurar a raça humana e se consideram chamadas a recomeçar a história. Embora lhes parecesse grave furtar o abraço de seu pai, mais grave lhes parecia a impiedade de permitir que se extinguisse a esperança de posteridade à custa de salvar a virgindade.” É o grito do sangue, a ânsia de uma vida que deve continuar irmã das futuras matriarcas de dois povos. Adicionando a droga do vinho, enganando, violentando de algum modo o pai, estas duas mulheres ostentam uma grandeza ambivalente, sombria e luminosa. Por elas triunfou a vida. O povo de Sodoma não busca viver, mas consumir a vida no prazer; elas atendem ao grito da vida.”
Nos comentários e interpretações encontramos justificativas para o fato apresentado.
Prosseguindo nas reflexões temos a considerar:
a) que na escrita da Bíblia está a inspiração do Espírito Santo mas também a percepção e a vivência dos homens que a escreveram, pois Deus não inutiliza o que somos cada um de nós; é a Palavra de Deus misturada com a palavra humana;
b) que a Bíblia é o livro da vida – de tempos passados e de hoje – pois nela está contida a vida do ser humano, seus sentimentos e impulsos, seus pensamentos e motivações; embora tantos séculos distanciem esta geração das gerações que viveram nas épocas descritas na Bíblia, embora o mundo tenha se transformado tão radicalmente, o ser humano continua a sentir amor e ódio, ternura e ira, solidariedade e desejo de vingança... como livro da vida, a Bíblia não é um compêndio de boas atitudes e bons exemplos mas sim o retrato da trajetória de um povo em busca de Deus e a manifestação desse Deus que ama incondicionalmente, perdoa sempre e promete estar próximo.
Daí podem persistir sobre o texto alguns questionamentos:
· O que levou Ló a ofertar suas filhas, preterindo-as aos anjos ou mensageiros?
· Foi somente o desejo de perpetuarem a espécie humana que levou as filhas a agirem da forma descrita ou sobre esse desejo não atuou também o apetite sexual – natural a todo ser humano e validado por Deus para o prosseguimento da vida?
· Por que o autor bíblico inocenta o pai e atribui inteira responsabilidade às filhas mulheres?
· Serão essas considerações importantes para extrairmos do texto bíblico ensinamentos e luzes para nosso caminhar?
Nosso objetivo com a redação deste texto e respectivos questionamentos é sugerir uma postura livre e sem censura diante da leitura dos textos bíblicos; é ter honestidade diante de Deus, que nos conhece no mais íntimo de nosso ser, é estar diante da Bíblia exatamente como somos, com nossas dúvidas interiores, com a nossa pequenez e nossa imperfeição, com nosso comportamento nem sempre condizente com as nossas crenças e não nos melindrarmos ao lermos textos que apresentam o ser humano em suas fraquezas porque também os personagens bíblicos eram seres humanos “em construção”, estavam como nós aprendendo a conhecer Deus; é, afinal, entendermos que nossos olhos e nossa busca devem estar focados em Deus e não nas atitudes humanas. O ser humano é imperfeito mas Deus é perfeição e Sua Palavra é sempre “lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho”. Salmo 119, 105.
EDIÇÃO 58
2 - SARA - NOSSA MATRIARCA
No artigo anterior tratamos de Eva e refletimos sobre a vontade de Deus na criação quanto ao papel da mulher: submissão ao homem ou companheirismo. Cabe lembrar que esses comentários sobre as mulheres da Bíblia não são documentos teológicos, nem verdades absolutas, apenas reflexões sobre as mulheres citadas na Palavra de Deus. Toda e qualquer discordância enriquece a reflexão.
2. SARA, nossa matriarca
Hoje nossa comentário é sobre Sara, denominada inicialmente Sarai, esposa do patriarca Abraão. Sobre ela encontramos relatos que, explícita ou implícitamente, apresentam as seguintes ocorrências de sua vida:
2.1 Ao chamado de Deus a Abraão (Gn 12,1-4) Sara acompanhou o marido; não questionou sobre o destino, sobre as dificuldades que iriam enfrentar, sobre sua vontade de deixar pais, familiares e amigos, de deixar sua terra natal... Terá ela também se sentido chamada por Deus para a formação do povo de Israel? Ou, segundo a prática familiar costumeira da época, já tinha sido educada para “seguir o marido”, para não pensar em si própria, para submeter-se à vontade e decisões do marido, pois era “sua propriedade”?
2.2 No Egito, Sara é entregue ao faraó como irmã de Abraão (Gn 12, 10-20). O relato da mulher-irmã é apresentado em duas outras passagem bíblicas com mudança de personagens: em Gn 20 e Gn 26. Para livrar o marido de um suposto perigo Sara aceita o papel de irmã e é incorporada ao harém do faraó. Este, como os demais trechos citados podem nos sugerir a imagem de uma mulher forte e determinada que não mede esforços para preservar a vida do homem amado ou de uma mulher fraca e submissa que aceita as imposições patriarcais sem questionar o sofrimento que lhe possa ser imposto.
2.3 Sara oferece ao marido sua escrava Agar, para que Abraão tenha filhos. Reconhecendo-se estéril procura uma alternativa para que a promessa de Deus possa realizar-se... mas, nos planos de Deus a aliança com Abraão e sua descendência será realizada através do filho legítimo de Abraão e Sara (Gn 17, 15-22). Deus não precisa de “alternativas”, suas promessas se cumprem no Seu tempo e não no nosso. As relações entre Sara e Agar tornam-se difíceis depois que Agar concebe e mais ainda, depois do nascimento de Ismael e de Isaac. A situação é realmente constrangedora tanto para Sara quanto para Agar, diz a Bíblia:”... Agar perdeu o respeito para com Sarai...” e, mais adiante “Sarai maltratou de tal modo Agar, que ela fugiu de sua presença.” (Gn 16, 4b. 6c), mas o anjo de Javé fortaleceu Agar e conduziu de volta para casa (por algum tempo).
2.4 Incredulidade de Sara diante do anúncio de sua própria concepção (Gn 18, 10-15). Ambos, Abraão e Sara, já tinham idade bem avançada e Sara nem menstruava mais... como acreditar que seria mãe? Descrer do anúncio seria a reação mais provável de qualquer mulher... Mas o poder de Deus se revela superior à impotência humana. Também Ana, mãe de Samuel (1 Sm 1,2.20) e Isabel, mãe de João Batista (Lc 1, 36) eram estéreis e tornaram-se mães na velhice porque para Deus nada é impossível (A Bíblia nos ensina esta verdade).
2.5 Sara concebe Isaac – o filho da promessa (Gn 21). Temendo que Ismael ascenda à condição de herdeiro como filho de Abraão, Sara exige que o esposo expulse Agar de sua casa, junto com seu filho. O texto é muito discutido e analisado por diferentes focos. O apóstolo Paulo, fazendo uma comparação da escravidão de Israel à Lei de Moisés e a liberdade proposta por Jesus, apresenta em sua carta aos Gálatas o texto Gl 4, 21-27, cujo comentário da Bíblia do Peregrino diz: “Sara, esposa legítima e livre, estéril, milagrosamente dá à luz um filho livre, Isaac. Agar, concubina escrava, dá à luz um filho escravo, Ismael, que é excluído da herança e expulso. Paulo sobrepõe às figuras femininas de Agar e Sara a personificação clássica de Jerusalém como matriarca e esposa de Deus. Só que distingue uma Jerusalém empírica, submetida à escravidão e uma Jerusalém transcendente, celeste, destinatária da promessa de Is 54, 1-3. Enquanto montanha sagrada Jerusalém equivale ao Sinai, montanha da lei; enquanto morada dos descendentes de Agar, é lugar de escravidão.”
2.6 Nenhuma citação do nome de Sara está no relato do sacrifício de Isaac (Gn 22) Onde estaria Sara no decorrer desse acontecimento tão significativo? Pode-se supor que o autor tenha desejado manter o foco unicamente no acontecimento, pela sua relevância “... a intervenção de Deus, no princípio e no final, é o marco que envolve e ilumina a narração.” (comentário da Bíblia do Peregrino). Teria Abraão levado o filho para o sacrifício, sem comentar o fato com Sara?... Teria Sara sabido do pedido de Deus a seu esposo e, junto com o esposo, aceitado a vontade de Deus?... Como Sara reagiu quando Abraão retornou com o filho?... Quais as conseqüências deste fato na vida familiar?...
2.7 Sara morreu. Para enterrar Sara, Abraão comprou um campo e legalmente passou a ocupar a terra prometida (Gn 23). Por todos esses fatos constatamos que a presença de Sara foi marcante na vida de Abraão e sua morte foi a razão fundamental para que ele se estabelecesse, definitivamente, concluindo sua trajetória de Ur, na Caldéia à Canaã, pois, segundo as práticas legais existentes na época, “quem possui uma sepultura como propriedade, possui um terreno e é habitante do país.”
Na vida de Sara vimos refletido o contexto familiar, as relações marido-esposa e todo que os cercam, os projetos e sonhos do casal, os planos de Deus que sobrepõem-se aos acontecimentos corriqueiros, aos costumes e às leis, o instinto materno que defende, protege e busca garantias para o futuro dos filhos e a ausência aparente que contém a presença não revelada. Muitas situações que nos fazem refletir sobre as famílias atuais, seus relacionamentos, suas decisões e as conseqüências sobre o futuro de nossos filhos.
EDIÇÃO 57
1 - EVA: A MÃE DE TODOS OS VIVENTES
Qual a imagem que você tem de Eva? Que fatos mais relevantes você se recorda desta mulher?
Sobre a criação do homem e da mulher encontramos na Bíblia os seguintes versículos:
Gn 1, 27 “E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher.”
Gn 2, 18 “Não é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele uma auxiliar que lhe seja semelhante.”
Gn 2, 21-24 “Então Deus fez cair um torpor sobre o homem, e ele dormiu. Tomou então uma costela do homem e no lugar fez crescer carne. Depois, da costela que tinha tirado do homem Deus modelou uma mulher, e apresentou-a para o homem. Então o homem exclamou: “Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque foi tirada do homem!” Por isso, um homem deixa seu pai e sua mãe, e se une à sua mulher, e eles dois se tornam uma só carne.”
Nos dois primeiros versículos citados acima percebemos a paridade entre ambos os seres criados por Deus, ambos criados à sua imagem e semelhança e semelhantes entre si, criados para serem companheiros e unirem-se “numa só carne”, numa relação de doação mútua, de comunhão, de amor. Constatamos assim que desde as primeiras páginas da Bíblia, e nas demais que se seguem, existem afirmações que revelam a ação do Espírito Santo destacando o valor e a dignidade da mulher.
Mas no contexto cultural do povo de Israel e de outros povos da antiguidade a mulher foi considerada em situação de inferioridade; no próprio texto de Gn 2, 21ss lemos que a mulher foi “tirada do homem”, formada a partir da costela do homem, o que já sugere uma certa submissão da mulher e superioridade masculina; e, no capítulo 3 do livro do Gênesis a referida relação de comunhão e amor foi corrompida pelo pecado comum do casal: a desobediência a Deus e daí, como está em Gn 3,16 o homem se torna dominador da mulher e a mulher se torna sua propriedade. Este conceito tornou-se predominante e perpetuou-se por séculos, exigindo da mulher uma luta contínua e progressiva para re-adquirir sua paridade ao sexo oposto.
Além da dominação recai sobre a mulher a culpa pela desobediência e conseqüente expulsão do Paraíso (já que foi ela quem primeiro comeu o fruto e depois ofereceu ao marido). Mas Adão sabia que o fruto era proibido... por que não condenou o ato da mulher e mostrou maior comprometimento com a vontade de Deus, mantendo-se obediente?... Por que não recusou a oferta de Eva?... E depois... não assumiu seu êrro e, covardemente, procurou desculpar-se acusando a companheira... Terá Eva carregado, sozinha, o peso desta culpa pelo resto de sua vida?... Terá ela transmitido às demais gerações esta culpabilidade?... Terá Adão repetidas vezes reclamado da esposa, recordando o acontecido?... Terão ambos reconhecido, posteriormente, o êrro que cometeram e empenhado esforços para viverem em paz e harmonia?... Muitos são os questionamentos e as reflexões que podemos fazer sobre o texto.
Hoje sabemos que neste trecho e em todo livro do Gênesis há muito de simbologia. O centro dessa questão sobre o fruto proibido está na pretensão do ser humano de “ser como Deus”, de ser auto-suficiente; Deus colocou Adão e Eva num paraíso, deu-lhes permissão de comer de todos os frutos e estabeleceu um limite: deste não comereis! Mulher e homem desobedeceram e foram expulsos do paraíso.
Mas como a misericórdia de Deus sobrepuja todo mal, Deus disse à serpente: “... você é maldita entre todos os animais... Eu porei inimizade entre você (serpente, símbolo de todo mal) e a mulher, entre a descendência de você (serpente) e os descendentes dela (da mulher). Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles.” Gn 3, 14-15. Estes versículos foram interpretados pelos exegetas como a promessa de Deus de uma descendência que culminará com a pessoa de Jesus Cristo. Descendente de Eva (séculos mais tarde) nascerá Maria e dela nascerá Jesus, o Filho de Deus que com sua morte e ressurreição vencerá todo mal. Resgatou-se assim a imagem da mulher.
A Bíblia, expressando toda a sabedoria e bondade de nosso Deus, nos mostra, através de Eva, que Deus conduz todas as coisas e pessoas para o bem final. Deus, Senhor da história, não desiste do ser humano; apesar de nossas falhas e fraquezas podemos seguir confiantes porque no fim tudo estará bem e conforme os desígnios de Deus. Esta é a nossa fé.
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